Relatório 1: “O problema”

Texto: Carol Lacerda para Organomix e Clube Orgânico

Orgânicos no Rio de Janeiro: um problema de raiz

Os alimentos orgânicos são aqueles cultivados com técnicas que respeitam o meio ambiente e quem os produz, livres de adubos químicos, herbicidas, venenos, sementes transgênicas, hormônios e antibióticos.

Mesmo sendo um tipo de produção sustentável, que busca maior qualidade do alimento, a valorização do produtor rural e a saúde da terra e do consumidor, a agricultura orgânica ainda não encontra o incentivo necessário. Apesar de crescente (em relação a 2017, houve cerca de 15% de aumento dos cultivos orgânicos), o consumo de agrotóxicos no Brasil é exorbitante, nos conferindo o triste título, desde 2008, de o maior consumidor de agrotóxicos do mundo. Aqui se consome o equivalente a 5,2 litros de tóxicos agrícolas por pessoa todo ano, sendo que várias das substâncias ingeridas por nós são proibidas em outros países.

Histórico

A produção de orgânicos no Brasil teve como pioneiro o Estado do Rio, na década de 70, com os primeiros produtores na região conhecida como Brejal, em Petrópolis, que hoje é um polo de agricultores familiares e de pequenos produtores rurais.

Nessa época, a produção de orgânicos era mais relacionada a movimentos filosóficos que buscavam o retorno do contato com a natureza como uma forma alternativa de vida, contudo, com o aumento da consciência de preservação ecológica e a busca por uma alimentação mais saudável, o consumo dos produtos orgânicos se expandiu e, na década de 80, foram organizadas mais cooperativas de produção orgânica com o objetivo de escoar a produção para os centros urbanos.

O problema

Quase 50 anos depois, ainda lidamos com uma cadeia produtiva frágil. De maneira geral, falta acesso aos produtos: por um lado, o varejista tem dificuldade de encontrar variedade suficiente para abastecer sua loja ou estabelecimento; já o consumidor lida com o amadorismo do setor, com produtos fora do padrão, pouca disponibilidade de itens no mercado (ainda que constantemente crescente) e, muitas vezes, a falta de compromisso com as regulamentações. Além disso, o consumidor final ainda está habituado à grande oferta de produtos com agrotóxicos, que não respeitam a sazonalidade dos alimentos, e espera encontrar os mesmos produtos frescos disponíveis o ano inteiro.

Isso tudo sem contar o custo. Produtos orgânicos são no mínimo 30% mais caros do que os mesmos itens convencionais, e esse número pode ultrapassar os 100% em diversos casos, dependendo do produto ou da forma como é vendido. Nesse sentido, a conta nunca fecha: o produtor acha que ganha poucoo varejista acha que paga caro e o consumidor acaba não enxergando o real valor do produto orgânico, somente o preço.

Apesar de o mercado já estar mais preparado, a venda de produtos orgânicos no Brasil ainda depende muito das produções familiares. Como essas produções não são devidamente estruturadas, frequentemente faltam produtos nos supermercados e feiras, prejudicando quem vende e quem compra. E também falta conhecimento da parte do consumidor, que nem sempre compreende a diferença, por exemplo, entre um alimento convencional, hidropônico e orgânico.

Pela nossa experiência, podemos dizer que o problema está na raiz. De maneira geral, falta estrutura para atender a cadeia de forma otimizada, com abastecimento frequente e mais variedade de produtos; recursos técnicos que foquem na eficiência e no resultado, com metodologia profissional e agrônomos experientes, com o objetivo de estruturar e empoderar os pequenos produtores para que possam atender às demandas dos grandes centros de maneira mais ágil; além de uma logística mais eficiente e estruturada para reduzir gastos com transporte e intermediários de venda, resultando num preço final mais convidativo.

Entendemos que o pequeno produtor — que é a base da produção de frutas, legumes e verduras dos brasileiros — não precisa ser necessariamente desestruturado. E também não é só dele a responsabilidade de se profissionalizar: uma atuação organizada e em rede traz como benefício social a redução dos custos operacionais, fazendo com que os orgânicos se tornem uma categoria verdadeiramente democrática, disponível e acessível para todos.

Isso já é realidade em outros estados, porém, ainda há muito o que ser feito com a cadeia produtiva no Rio. Hoje os grandes mercados cariocas trazem produtos orgânicos, principalmente, de São Paulo, e o tempo de transporte e o excesso de intermediários naturalmente reduz a vida útil dos alimentos, além de aumentar seu custo. Por isso, é preciso investir na produção local de qualidade, para que seja possível reduzir os custos operacionais e, dessa forma, diminuir a dependência de se importar alimentos frescos de outras localidades.

Estamos longe de uma produção ideal que leve em conta o ganho de todos os envolvidos – o produtor, o varejista e o consumidor final –, contudo, já vemos iniciativas que valorizam esse mercado despontarem. É o caso da recente parceria firmada entre o Organomix e o Clube Orgânico, cujo objetivo é atuar diretamente nos pontos críticos da produção e venda de orgânicos no Rio de Janeiro.

Estreitando relações

O Organomix é um mercado que se baseia em 5 princípios, sendo o acesso à maior diversidade possível de alimentos orgânicos o primeiro e mais importante, pois é aquele que gera conexão da marca com a sua origem ligada ao campo. Hoje o mercado é o varejista do Rio de Janeiro com o maior portfólio de itens orgânicos , sejam eles alimentos in natura, minimamente processados ou industrializados, com lojas físicas e um e-commerce, o único a entregar essa variedade em todos os bairros do Rio e de Niterói.

Uma das facilidades oferecidas pelo Organomix é a entrega das cestas de frutas e vegetais do Clube Orgânico, uma empresa voltada para a geração de impacto, e pioneira no Brasil na democratização do acesso a alimentos orgânicos e sustentáveis, atuando na redução de desperdício de ponta a ponta, desenvolvendo o senso de segurança alimentar e liderando o desenvolvimento de uma cadeia justa e sustentável.

Ao apoiar essa iniciativa, o Organomix passou a atuar com cestas de frutas e vegetais orgânicos advindas exclusivamente de produtores locais, sendo uma consequência visível dessa parceria a redução no custo desses produtos para o consumidor. E o cliente final não foi o único a se beneficiar. Ao comprar de produção local, o Organomix apoia diretamente empreendedores rurais do Estado do Rio de Janeiro, como o Renato Agostini, um dos profissionais que cuida do plantio e colheita dos alimentos entregues nas cestas do Clube Orgânico.

Renato é o responsável pelo Sítio Solstício, que fica na região de Sumidouro, entre Teresópolis e Nova Friburgo, na região serrana do Rio de Janeiro. Com mais de 30 anos de experiência no campo, é o responsável pela produção junto de sua equipe e de produtores parceiros da região.

Biólogo formado, saiu da faculdade direto para o interior do Rio, onde vive, desde então, em contato direto com a natureza. Dessa relação com o campo nasceu a vontade de empreender: seu sítio é referência em produção orgânica, com mais de 50 opções diferentes certificadas pela ABIO, entre folhagens (que vão de diversos tipos de alface até folhas menos comuns no mercado, como mostarda e taioba), legumes, raízes (como a batata doce roxa, branca e laranja, além de batata yakon e outras variedades), temperos e uma ampla variedade de frutas.

Sua história é a prova viva de que, com o apoio das pessoas certas, é possível encontrar uma via alternativa aos métodos tradicionais de plantio e comercialização, que têm como base a produção intensiva e a desvalorização do trabalhador rural. Por ser o produtor mais antigo da rede do Clube Orgânico, Renato compartilha da visão de escala sustentável de produção e comercialização de orgânicos, criando uma transformação sistêmica que vai do campo à cidade sem intermediários, gerando mais de 10 empregos diretos só no seu sítio.

Entre todos os outros benefícios, a vantagem de se consumir orgânicos é a de saber a origem do que se consome. Como consequência da parceria entre o Organomix e o Clube Orgânico, hoje os produtores locais representam 35%[1], em média, do total das compras de frutas, legumes e verduras do Organomix, dando ao consumidor a oportunidade de se informar sobre os alimentos que consome e ser mais crítico em relação à origem da sua comida. A expectativa é que esse número aumente ainda mais, tornando realidade o acesso a uma produção 100% local e sustentável, na qual o consumidor perceba o real valor de se consumir produtos orgânicos.

E isso é só o começo desse movimento.

[1] * Dados de compras da semana de 4 a 9/11, sendo: R$ 5.123 em produtos locais de R$ 14.450 no total da categoria

 

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